Caroline Toledo dedicou todo ensino médio para sua candidatura ao curso superior nos EUA. Ela obteve bolsa parcial e família busca complementação.

A capacidade de cumprir uma agenda rigorosa foi decisiva para que Caroline Magalhães de Toledo, de 18 anos, fosse aceita para estudar neurociência na Universidade de Columbia, para onde viaja ainda neste ano.

Agora, até o embarque definitivo em agosto, a futura universitária vai dividir seus dias entre monitorias, continuidade das pesquisas de iniciação científica na Unicamp e busca por um parceiro que garanta a complementação da bolsa para pagamento do curso nos Estados Unidos.

Para conseguir a recente aprovação em Columbia, Caroline manteve por anos uma rotina de foco nos estudos. Em vez de curtidas nas redes sociais, muitas horas de leitura. No lugar de férias durante o ensino médio, cursos intensivos de verão e de iniciação científica. E nada de dormir até mais tarde no domingo: era a vez de dar aulas voluntárias ou treinar para olimpíadas de conhecimento.

“Um dos principais desafios para quem quer estudar fora é gerenciar o tempo”, afirma a estudante, que cursou o ensino médio no Etapa, em Valinhos, na região de Campinas, no interior de São Paulo.

“O processo de application (candidatura a uma vaga em universidade no exterior) é complexo. Então, quanto antes o aluno decidir que quer aplicar, mais chances terá de desenvolver as habilidades e pré-requisitos necessários para sua candidatura”, conta Caroline.

Referências

Nas memórias da mãe, Patrícia Magalhães de Toledo, a filha Caroline foi a menina que um dia questionou por que balas não podiam substituir as seringas na hora de aplicar vacinas. E que, além de ter esse perfil de menina curiosa, conviveu boa parte da infância com temas relacionados ao mundo acadêmico. “Fiz meu mestrado e doutorado com a Carol criança. Ela me viu estudando, ela se envolvia nisso “, conta a mãe, que é doutora e ex-diretora da Agência de Inovação da Unicamp.

Mas a rotina familiar compartilhada não se resumiu aos livros: Caroline pôde experimentar ginástica, natação, música e artes visuais. “Procurei expor a várias habilidades, para ela ver se o perfil científico era o que queria desenvolver. Uma função dos pais é deixar os filhos experimentarem”, conta Patrícia.

os 13 anos, ainda antes de entrar no ensino médio, a garota descobriu sua meta estudantil durante uma visita de um mês acompanhando uma viagem da mãe a Cambridge, no Reino Unido. “A vontade de estudar fora do Brasil foi um misto de busca por melhor infraestrutura de pesquisa e maior valorização de pesquisa científica e das experiências que tive ao acompanhar minha mãe”, conta Caroline.

O exemplo dos pais, ambos engenheiros, não determinaram sua escolha de carreira. Sua meta em Columbia é obter um duplo diploma (double major) em neurociências e biologia. O que mais lhe atrái é o estudo da memória e das doenças que a afetam.

“Meu interesse por pesquisa unindo biologia molecular e neurociências surgiu ao longo do primeiro ano e no começo do segundo do ensino médio, através da participação na olimpíada de neurociências e de um curso que fiz em Harvard, com forte componente de laboratório, focado em expressão gênica”, lembra.

No Brasil, no início de 2015, ela começou pesquisa de iniciação científica na Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp para pesquisar as bases moleculares da epilepsia infantil. Os resultados da pesquisa foram apresentados em três congressos e também publicados no Journal of Epilepsy and Clinical Neuroscience.

“Eu imagino que um dos fatores que mais impactou na minha aceitação em Columbia foi o foco claro em ciências, através dos cursos, olimpíadas e pesquisa, acompanhado pelo meu interesse em outras áreas, como humanas, e artes, como piano, violão e canto. Como Columbia têm um currículo obrigatório com ênfase em humanas e leitura, entendo que buscam alunos com interesses interdisciplinares e que consigam transitar em diversas esferas do conhecimento”, avalia Caroline.

Complementação da bolsa

A estudante deve viajar em agosto para começar o período de adaptação. As aulas serão a partir de setembro. Até lá, o desafio é encontrar uma fundação que apoie a família na complementação dos custos do curso no exterior.

Na esteira da crise que afetou a economia brasileira, Caroline conta que seus pais passaram recentemente por mudanças consecutivas de emprego. Diante da conjuntura decidiram empreender e dar os primeiros passos em uma empresa de prestação de serviços. Até que o empreendimento traga o retorno financeiro necessário, a família vai buscar fundações ou parceiros no Brasil que possam apoiar com a complementação do custo anual dos estudos.

Apesar da aceitação em Columbia, a bolsa garantida pela universidade é de menos de 90% dos custos anuais com mensalidade, moradia e alimentação.

“(Durante o ensino médio) tínhamos condições de garantir as coisas para ela, mas os ultimos três anos foram difíceis. Nosso medo da frustração era, e se ela passar e a bolsa não for suficiente?”, conta a mãe. Para conquistar novos apoios, a família se apoia no histórico da garota, que coleciona, entre outros feitos, quatro medalhas em olimpíadas de conhecimento e o Prêmio Jovens Fora de Série 2015 da Fundação Estudar.

No futuro, a meta de Caroline é retornar ao Brasil e trabalhar para ampliação da pesquisa em sua área de estudos. “As pesquisas de neurociências no Brasil, em grande parte, ainda são feitas dentro da medicina, é uma área que ainda há muito o que descobrir. Para mim, o fato de ainda ter muitas portas abertas para pesquisa é o que me encanta bastante”, afirma.

Fonte: G1 Educação