Pesquisadores analisaram mais de um milhão de notas do Enade entre 2012 e 2014; cotistas sociais e raciais e alunos com contrato do Fies tiveram nota igual à dos estudantes sem benefícios do governo federal.

Uma pesquisa que analisou a nota de mais de um milhão de universitários brasileiros no Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade) mostra que os estudantes com bolsa do Programa Universidade para Todos (Prouni) tiveram nota mais alta do que estudantes não beneficiados pelo programa. A pesquisa também comparou o desempenho dos estudantes com contrato do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) e de cotistas sociais e raciais de universidades federais, e descobriu que, nesses casos, as notas dos beneficiados pelos programas foram iguais às dos estudantes não-cotistas ou sem financiamento do governo federal.

O estudo foi realizado por Jacques Wainer, professor titular do Instituto de Computação da Universidade Estadual de Campinas, e Tatiana Melguizo, professora associada da Rossier School of Education da University of Southern California. De acordo com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Wainer teve o apoio da fundação para uma bolsa de pesquisa relacionada ao tema.

A escolha pela nota do Enade, segundo os pesquisadores, permite medir os “conhecimentos totais adquiridos pelo aluno durante o ensino superior e sua preparação para a futura carreira profissional”, já que o exame é aplicado aos estudantes que estão em vias de se formar na graduação.

Em entrevista ao G1, Wainer, que trabalha no Instituto de Computação da Unicamp, afirmou que “a grande maioria dos artigos brasileiros” estudam número de uma única universidade. “São professores que têm acesso às notas e fazem as contas para a universidade”, explicou ele. De acord com o professor, há outros estudos que já usaram as notas do Enade para medir os efeitos das políticas de inclusão no ensino superior. Segundo eles, como a nota no Enade não afeta a graduação do estudante, nem todos se preparam ou levam as questões a sério. Porém, quando um grande número de notas entra na análise, o artigo defende que exame pode corresponder “em parte ao conhecimento adquirido pelos alunos”.

Ao analisar os dados, Wainer e Melguizo concluíram que, ao final da graduação, “alunos que receberam bolsa do Prouni parecem ter acumulado mais conhecimentos que seus colegas de classes”. Em relação aos demais programas, o artigo diz que “não há diferença prática” entre o conhecimento adquirido pelos alunos cotistas e seus colegas de classe não cotistas (mesmo entre cotistas raciais, cotistas sociais ou beneficiados com uma combinação de cotas); além disso, os pesquisadores também mostram que “não há diferença prática de conhecimento ao final da graduação entre alunos que receberam empréstimo pelo Fies e seus colegas de classe que não receberam o empréstimo”.

Análise de 77 cursos diferentes

A base de dados do estudo foi constituída dos resultados do Enade nas edições de 2012, 2013 e 2014. Como o exame é aplicado apenas uma vez a cada três anos para os formandos de cada área, o período analisado pelos pesquisadores foi capaz de incluir as notas de 1.017.039 estudantes de 77 cursos diferentes.

No artigo, os autores afirmam que o objetivo do estudo é avaliar o rendimento dos alunos beneficiados por políticas de inclusão, em contraste com os demais alunos. Segundo os pesquisadores, em geral, as pesquisas que analisam essas políticas também costumam se concentrar em outras dimensões, como a diversidade no acesso ao ensino superior, a evasão e o tempo que o aluno leva para concluir o curso de graduação. “Achamos importante não discutir, por exemplo, diferenças de desempenho entre diferentes cursos, como tem sido feito na grande maioria das publicações sobre o assunto”, dizem os pesquisadores no artigo.

A avaliação por meio do Enade foi possível porque, para participar do exame, os estudantes precisam declarar se foram beneficiados por cotas ou se participavam do Prouni ou do Fies. Usando as informações do questionário socioeconômico preenchido pelos estudantes, o estudo separou as notas em diferentes categorias: a de estudantes que não foram beneficiados pelos programas de cotas, bolsas ou financiamento, e categorias de estudantes beneficiados.

Desses, 82.577 eram bolsistas do Prouni, 71.390 tinham financiamento do Fies e 176.881 eram entraram em universidades federais por meio de cotas: 13.147 eram cotistas raciais, 100.471 eram cotistas sociais, 63.263 foram beneficiados por uma combinação de critérios raciais e sociais.

Abrangência metodológica

Após levantar os dados, os pesquisadores fizeram uma série de cálculos estatísticos para garantir que a comparação não sofresse desvios que pudessem relativizar os resultados. “Se a prova de psicologia fosse muito difícil as notas seriam muito baixas”, explicou Wainer. “Quando divide pelo desvio padrão, fica todo mundo com nota média zero: quem foi melhor fica acima, quem foi pior fica abaixo.”

Além de garantir que os alunos pudessem ser comparados por notas de provas diferentes, o levantamento também restringiu a comparação desses desvios dentro de universos estabelecidos. Por exemplo: as notas dos estudantes beneficiados foram comparadas sempre com a de seus “colegas de classe” não beneficiados. A restrição também se estendeu ao tipo de benefício para, segundo Wainer, “não ter a soma de pessoas que não deviam estar comparadas”. Isso quer dizer que, no caso dos benefícios da Lei de Cotas (uma política que só é aplicada a universidades públicas), as notas dos estudantes beneficiados foram comparadas apenas com a de estudantes não beneficiados que também estudam em instituições públicas.

“Selecionando não cotistas apenas de IES [instituições de ensino superior] e cursos nos quais existem cotistas, eliminamos esse viés. Por outro lado, alunos que receberam o Fies, e que estão em IES pagas, teriam uma desvantagem injusta quando comparados com todos os alunos de IES públicas, já que estes com certeza não receberam o Fies”, explica o artigo.

A comparação levou em conta as notas nas duas provas do Enade: a de conhecimentos específicos e da formação geral.

Resultados

Depois de aplicados os cálculos para padronizar as notas, os pesquisadores puderam comparar as notas entre as médias das diferentes categorias de alunos beneficiados pelas políticas de inclusão social, e as médias dos demais alunos das classes. Veja abaixo a lista com o “ganho padronizado” (ou seja, a diferença, positiva ou negativa, entre as duas médias comparadas) registrado na análise de cada categoria:

  • Cotistas (prova específica): 0,04
  • Cotistas (prova geral): 0,01
  • Bolsistas Prouni (prova específica): 0,47
  • Bolsistas Prouni (prova geral): 0,41
  • Financiado pelo Fies (prova específica): -0,05
  • Financiado pelo Fies (prova geral): 0,01

Os números acima representam a diferença entre a nota dos beneficiados em comparação com a dos demais colegas de classe. Segundo os pesquisadores, o grupo de 10% de estudantes mais próximos à média (5% acima da média e 5% abaixo da média) são considerados como se tivessem desempenho equivalente. Pelos cálculos estatísticos, se o valor de desvio da média (que é zero), varia em até 0,13, o resultado indica que a nota é equivalente, ou seja, o desempenho tanto de cotistas quanto de beneficiados por empréstimos do Fies é considerado igual ao dos estudantes da mesma classe que não foram beneficiados pelos programas.

“No caso do Fies, é uma nota um pouquinho pior, mas de uma forma não importante. No caso dos cotistas, é uma nota um pouquinho melhor, mas de uma forma não importante. Como a forma é não importante, eu não falo que é melhor ou pior”, explicou Wainer.

O estudo também fez um recorte considerando apenas os cursos e instituições públicos com as médias mais altas no Enade, ou seja, o que indicam serem os mais prestigiosos e, portanto, mais competitivos. Nesse caso, foram analisadas apenas as notas de cotistas e não cotistas nos 10% das classes com maiores médias na prova específica do Enade. Veja o resultado:

  • Cotistas (prova específica): -0,02
  • Cotistas (prova geral): -0,07

De acordo com o estudo, a comparação continua dentro do limite de equivalência, ou seja, mesmo nos cursos considerados mais difíceis, o desempenho de cotistas foi igual ao de estudantes aprovados pela ampla concorrência. “Entendemos que a separação de classes melhores captura em parte o fato de que devem haver combinações entre curso e IES que são mais competitivas e para as quais alunos cotistas talvez tenham um ganho padronizado pior. Mas não é isso que encontramos nos dados: o desempenho de alunos cotistas e não cotistas é equivalente para todos os efeitos práticos nas classes melhores”, diz o estudo.

Prouni acima da média

Já no caso do Prouni, o resultado da comparação ultrapassa esse limite de equivalência. “Ou seja, os alunos do ProUni tiveram em média notas maiores que seus colegas, tanto no exame geral quanto no específico. Essas diferenças são estatisticamente significativas (não são devidas à sorte) e são de importância prática na definição deste artigo”, dizem os pesquisadores.

Uma explicação possível para o alto desempenho dos bolsistas do Prouni, de acordo com o artigo, é a alta exigência que o programa do Ministério da Educação impõe aos estudantes, tanto no momento da seleção (só podem concorrer às bolsas quem tiver uma nota mínima no Exame Nacional do Ensino Médio) quanto durante toda a graduação. “É provável que alunos com bolsa Prouni são alunos com uma melhor formação ao final do segundo grau que seus colegas de classe. O Prouni ainda exige uma aprovação em pelo menos 75% das disciplinas cursadas no semestre anterior, e isto talvez tenha um impacto positivo no desempenho do bolsista”, conclui o artigo.

Fonte: G1 – Educação